Ilustração do aparelho reprodutor feminino (adaptado de 1)
Os ovários constituem os órgãos primários de reprodução feminina. Apresentam uma estrutura sólida e ovóide com cerca de 3,5 cm de comprimento, 2 cm de largura e 1 cm de espessura. Estão localizados na região lateral da cavidade pélvica, um de cada lado do útero, suspensos pelos ligamentos peritoneais.3
Dentro de cada ovário é possível distinguir duas estruturas distintas: o córtex (estrutura exterior) e a medula (estrutura interior). O córtex apresenta-se como a estrutura mais densa e granular, na qual estão presentes vários folículos em diferentes fases de desenvolvimento, contendo cada um no seu interior um oócito. A medula ocupa a posição central dos ovários e é composta na sua maioria por vasos sanguíneos, vasos linfáticos e fibras nervosas.3
Todas estas estruturas são essenciais para que o ovário exerça a sua função primordial: o desenvolvimento dos oócitos, que darão origem aos óvulos (gâmeta feminino). Os óvulos são produzidos através do processo da oogénese, que se inicia ainda antes do nascimento, durante o desenvolvimento fetal.3
Ao nascimento, todos os óvulos que serão libertados pelos ovários ao longo do ciclo reprodutivo já se encontram formados, compondo cerca de 700.000 oócitos. Desde o nascimento até à puberdade, o número de oócitos viáveis reduzirá para cerca de 400.000. Apesar de se encontrarem já formados, estes encontram-se num estado imaturo (oócitos primários) e, apenas com o início da puberdade, sobre a influência da Hormona Folículo-Estimulante (FSH) continuam o seu desenvolvimento, diferenciando-se em oócitos secundários, vulgarmente conhecidos como óvulos. Este processo, que ocorre mensalmente, culmina com a libertação de um único óvulo secundário (processo designado de ovulação), que estará pronto para ser fertilizado por um espermatozóide (gâmeta masculino).3
Estrutura do ovário (adaptado de 4)
O cancro do ovário desenvolve-se a partir de células dos ovários ou das trompas de Falópio que sofreram alterações anormais e se multiplicaram de forma descontrolada, formando uma massa ou tumor.1
Os ovários são constituídos, maioritariamente, por 3 tipos de células, podendo cada tipo ser alvo de desenvolvimento celular irregular:7
Alguns dos tumores que se possam desenvolver nestas estruturas são benignos (não cancerígenos) e não irão evoluir além do ovário. Outros podem vir a evoluir para outras partes do corpo (metastização) e ser fatais, considerando-se malignos (cancerígenos) ou borderline (geralmente com baixo potencial de malignidade).7
A causa específica de cancro do ovário não é conhecida. No entanto, estão identificados alguns dos fatores de risco e de proteção. Apesar destes fatores poderem aumentar ou diminuir a probabilidade de desenvolver cancro do ovário, é importante ter em conta que não é possível inferir que a sua presença ou ausência possa resultar ou não no desenvolvimento de cancro do ovário.1
A maioria dos casos de cancro do ovário, entre 85 a 90%, correspondem a este tipo de cancro que se desenvolve na superfície exterior do ovário, o epitélio. Dentro deste tipo de cancro e conforme as suas caraterísticas microscópicas, é possível classificar diferentes subtipos.1,7
Os principais subtipos histológicos de cancro do ovário epitelial são:
Diferentes subtipos de cancro do ovário epitelial (Adaptado de 8)
Carcinoma peritoneal primário:
O carcinoma peritoneal primário representa um forma rara de cancro do ovário, em muito semelhante ao cancro do ovário epitelial. Apresenta, geralmente, a aparência de um cancro do ovário epitelial que alastrou para o abdómen e, também, células muito semelhantes. Não sendo um tipo dependente dos ovários, pode surgir também em mulheres que removeram os mesmos.7
Cancro da trompa de Falópio:
O cancro das trompas de Falópio é semelhante ao cancro epitelial do ovário e frequentemente dissemina-se para o ovário e para o peritoneu. Tem origem na trompa de Falópio, a estrutura que transporta o óvulo do ovário para o útero. O cancro das trompas de Falópio e o cancro do ovário apresentam sintomas e tratamento semelhantes. No entanto, o prognóstico pode ser ligeiramente mais favorável quando a doença está limitada à trompa de Falópio.7
Os tumores das células estromais do ovário pertencem ao grupo dos tumores do cordão sexual e do estroma (SCSTs), que têm origem nas células do estroma, responsáveis pela formação do tecido conjuntivo que confere suporte e estrutura aos ovários. Estes tumores são menos frequentes do que o cancro epitelial do ovário e os tumores germinativos, podendo ser benignos ou malignos.7
De um modo geral, os tumores malignos deste grupo são frequentemente diagnosticados numa fase precoce e apresentam um prognóstico favorável, com mais de 75% dos doentes a sobreviverem a longo prazo. Entre os principais tumores estromais encontram-se o fibroma, que é o tipo benigno mais comum, e o tecoma, que também é habitualmente benigno. Os tumores estromais integram uma das principais categorias dos tumores do cordão sexual e do estroma do ovário.7
As células germinativas são as células responsáveis pela produção dos gâmetas femininos (óvulos) e masculinos (espermatozóides). Este tipo de cancro representa menos de 2% de todos os casos de cancro do ovário. Apresenta bom prognóstico, com cerca de 90% das doentes a sobreviverem aos 5 anos após diagnóstico.7
Sintomas associados ao cancro do ovário
Em estadios iniciais, o cancro do ovário epitelial pode ser assintomático, ou apenas apresentar sintomas inespecíficos da doença, fator que dificulta o seu diagnóstico.1
Adaptado de 1
Incidência do cancro do ovário em Portugal e no mundo.
O cancro do ovário é a oitava maior causa de cancro entre as mulheres, em todo o mundo, tendo maior incidência na Europa e Oceânia e menor incidência em África e na Ásia. Esta forma de cancro é predominante em mulheres com idade avançada e após a menopausa, com a grande generalidade dos diagnósticos a ser realizada após os 50 anos.1,6
Incidência do cancro do ovário nas mulheres (taxa padronizada por idade, por 100 000 habitantes), em 2024 (Adaptado de 6)
Taxas de incidência dos vários tipos de cancro, em Portugal, no ano de 2024 (Adaptado de 6)
Em 2024, foram diagnosticados 590 novos casos de cancro do ovário em Portugal.5
Incidência estimada para o cancro do ovário em Portugal de 2024 a 2040 (Adaptado de 6)
O diagnóstico do cancro do ovário pode revelar-se difícil devido à inespecificidade dos sinais e sintomas associados, a não ser que ocorra uma monitorização constante, por presença confirmada de mutação nos genes. Os sintomas podem não ser imediatamente percetíveis ou levar à suspeita de outras patologias, fator que poderá atrasar o correto diagnóstico até que o cancro do ovário se encontre já num estadio mais avançado.1
Assim, é necessário que a mulher esteja atenta a todos os sinais, sintomas e alterações do seu estado de saúde, consultando sempre o seu médico de família.1
O diagnóstico do cancro do ovário depende, normalmente, do resultado dos seguintes procedimentos:1,2
A avaliação geral da doente é feita exercendo pressão sobre o abdómen e verificando a existência de irregularidades, nódulos linfáticos inflamados ou acumulação anormal de líquido ascitíco. No caso de suspeita de alguma anormalidade, pode ser retirada uma amostra de líquido para identificação de possíveis células cancerígenas do ovário (no caso de ascite), ou então solicitadas análises ao sangue ou exames imagiológicos.1,2
A análise sanguínea pode servir para monitorizar alguns marcadores tumorais, tal como o CA-125. Este biomarcador está presente na superfície de células cancerígenas do ovário, bem como em alguns tecidos normais, sendo a sua expressão mais elevada em cerca de 50% das mulheres com cancro do ovário epitelial em estadio inicial e 85% das mulheres com cancro do ovário em estadio avançado. No entanto, este marcador não é específico do cancro do ovário epitelial e poderá estar elevado na presença de outras patologias malignas e benignas.1,2
Consiste na recolha de tecido ou líquido para a determinação da presença de células cancerígenas. Com base nos resultados, pode ser necessária a realização de uma cirurgia de remoção de tecido (designada por laparotomia) da pélvis ou do abdómen. Em alternativa pode também ser realizada uma laparoscopia, na qual é inserido um tubo fino e iluminado (laparoscópio) através de uma pequena incisão no abdómen.2
Apesar das características físicas e do estilo de vida desempenharem um papel importante, também o perfil genético pode influenciar a probabilidade de uma mulher desenvolver cancro do ovário.
Aproximadamente 6-25% das mulheres com cancro do ovário apresentam mutação BRCA 1/2. Estima-se que a presença da mutação BRCA 1 aumente em 15-45% o risco de desenvolver cancro do ovário, enquanto que a presença da mutação BRCA 2 aumente em 10-20% esse risco.1
Para mais informação relativamente ao impacto das mutações BRCA no cancro do ovário, poderá consultar a página da campanha saBeR mais ContA, uma iniciativa das associações Careca Power e Evita, da Sociedade Portuguesa de Genética Humana, da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, da Sociedade Portuguesa de Oncologia e da Sociedade Portuguesa de Senologia, apoiada pela AstraZeneca.
BRCA1: Gene de suscetibilidade ao cancro da mama 1; BRCA2: Gene de suscetibilidade ao cancro da mama 2; CA-125: Antigénio Cancerígeno 125; ESMO: Sociedade Europeia de Oncologia Médica; FSH: Hormona Folículo-Estimulante; TAC: Tomografia Axial Computorizada.
Veeva ID: PT-23141 aprovado a 07/2026